Menina

É surreal.

A maneira como ela coloca os cachos atrás das orelhas e força os olhos no papel ainda em branco, passando a impressão de que há nele, escrito em tinta transparente, algo de magicamente interessante. E ainda está com os olhos cravados nele, assim com uma leve inclinação da cabeça para a esquerda, num gesto tão pessoal, como se ela esperasse que as palavras e desenhos pulassem de sua mente, formados, transformadores, e se fixassem no papel com a pressão de seu olhar.

Ela ainda olha o papel. Ainda segura o lápis de cor na mãozinha pequena, de dedos rechonchudos, tão caracterizados pelo pequenino anel em seu dedo médio.

A pressão prossegue, os olhos tornam-se mais estreitos, inclina-se sobre o papel um pouco mais, como se a distancia entre o papel e o olho, o olho e a superfície colorida, fizessem da tarefa de derramar as pequenas letras que já aprendeu, e tê-las ali só pela força da vontade, fosse mais difícil.

Ela ainda olha, uma fixação forte, aperta o lápis de cor na outra mão com tanta força que seus dedinhos ficam esbranquiçados. E então ela ri. Joga a cabeça para traz e ri a valer. Ri de si mesma, desta bobagem única de fazer algo impossível, fisicamente impossível, mas altamente provável em sua cabecinha. Ela ainda ri quando olha pra mim, ainda dá sua gargalhada sapeca e divertida de quem notou a própria bobagem, de quem viu que estava dispendendo tanto esforço, tanta concentração, derramando sobre aquele objetivo chulo tanta energia. Assim como eu. E riu mais alto. E correu para mim, agarrando-se às minhas costelas e rindo e me apertando e rindo e me envolvendo em seus bracinhos. E rindo.

Notei que havia nela tudo de bom. Tudo de brilhante e mágico que podia haver no mundo. Tudo de mais bacana. Notei que sempre desejei aquela risada gostosa, desejei que ela fosse bacana, que ela fosse divertida e desapegada daquela maneira, que tivesse aquele empenho e a percepção do erro. E que da percepção viesse o riso, e do riso a satisfação, e da satisfação a troça.

Notei que de todas as emoções que alguém já me despertou na vida, as que vinham dela eram as melhores. Sempre me pareciam tão intensas, tão magnânimas, tão desnorteantes. Como quando somos crianças e pedimos para alguém nos empurrar no balanço. E sempre que aquele alguém nos empurra, gritamos: “Mais alto, mais alto”, como se pelo simples impulso de um empurrão no parquinho e em um balanço, do timbre agitado que empregamos à voz, pudéssemos voar de encontro às maiores estrelas.

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