Um futuro indescritivelmente indiscreto

No início do fim, com o despertador maléfico tocando às 5h da manhã, acordei coçando os olhos e com a lente embaçada. Senti um peso no pé da cama, e não era o cachorro. Olhei e me deparei com um futuro do que sou eu, nada tão diferente. Preta igual, descabelada igual, com a mesma cara amassada de agora, mas um ano mais velha.

Ela me olhou, deu uma golada no café, e continuou a batucar nos joelhos. Ela era eu, e eu não era nada àquela hora da manhã!

– Que foi?

– Me dá um gole?

– Você se vê no futuro e só tem coragem de pedir um gole do meu café?

– Véi, são 5h da manhã, e se você sou eu este café é meu. Me dá um gole!

– Juro que você para de usar essa gíria idiota em 2013!

Ela estendeu a xícara com minha habitual cara de “puta merda”. Nem todo mundo tem uma cara de “puta merda”, mas eu tenho. Na real é mais um jeito de levantar uma sobrancelha e fazer um muxoxo com a boca, tudo sincronizado com a cabeça que diz não e o “puta merda” brota na boca. Enfim, ela me estendeu o café e eu tomei.

Frio!

– Como sempre – disse eu e eu, em uníssono.

– Fala o que tu quer aqui que eu ainda tenho até às 7h30 pra dormir, antes de pegar no trabalho.

– Vim recapitular, quero nada de você não!

– Sério? Recapitular o que. (não sei porque tô perguntando ao invés de ir dormir)

– Só pra ver como eram as coisas antes de tudo mudar assim, tão redemoinhicamente.

– Você (eu) continua a inventar palavras assim mesmo?

– Sim, sempre. O português não é completo pra expressar tudo o que eu (você) penso. E você é burra demais pra aprender outra língua.

– Certo. E que mudanças redemoinhicamentes são essas?

– Ah, nada demais, só planos que deram certo, outros que empacaram, alguns que surgiram no meio do caminho e muita cara no muro.

– Não curti a cara no muro.

– Deixa de ser indecente. Ah, é isso, eu vim ver a discrepância do indiscreto que há em você em 2012.

– Acho que chegou cedo (ou tarde, são 5h da madruga) demais. Hoje é dia 31, eu trabalho até às 14h e depois tem muita coisa pra fazer. Acho que não dá tempo de ser indiscreta.

– Relaxa, tua cara é indiscreta. Tudo que você (eu) faz é indiscreto.

– Como assim, mulhé?

– O 2013 vai te trazer coisas novas. Boas e ruins, cheias de necessidades novas. Você (eu) vai ter que aprender muita coisa, e para isso terá de perder essa indiscrição toda. Mas isso é indescritivelmente diferente do que você (eu) está pensando. Sua indiscrição não tem relação com não ser reservada, recatada ou modesta, isso você (eu) não é mesmo. Seu futuro discreto é puramente distinto, é quase físico. É mais uma questão de se opor às grandezas contínuas. Aliás, você (eu) passará a odiar as continuidades.

– Mesmo? Então ferrou! Entendo nada dessa merda.

– Eu sei, é por isso que eu tô aqui.

– Pra me dizer que eu tenho que aprender a ser discreta ou o contrário, sei lá?

– Não, pra te dizer que você não vai conseguir!

– Ah.

Levantei e fui fazer um café decente.

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