A menina que morreu antes da revolução

Ela não teve tempo de ver a mudança.

Num dia ensolarado, passou a receber visitas frequentes de uma necessidade sem igual de mudar de lugar. Descobriu ali, na esquina, na espreita, uma doença crônica já em estado avançado e sem muito que se pudesse fazer… E então ela fez tudo.

Ousou ir a locais nunca antes explorados… por ela! Comeu, dormiu, gritou, subiu nas pontas dos pés e desafiou o escuro. Desafinou o mundo.

Mas isso foi antes.

No final, já sem revistas para ler, já sem visitas de amigos e sem esperanças, ela se foi. E, sem nem saber, sua partida trouxe de volta uma ribombada de revolução. Foi só um primeiro sopro.

Ela ainda conseguiu ouvir os primeiros sinais de agitação no ar. Ou melhor, no mar. Podia sentir, pela janela aberta, uma leve brisa mais quente, como que soprada por milhões de bocas. Podia ouvir o principio de milhares de vozes, em uníssono, gritando uma mudança anunciada. Só um sussurro.

Mas ela não chegou a ver a revolução. Não chegou a poder ir pras ruas, não chegou a ver a vida coberta de um tom sem igual e não conseguiu ouvir os gritos. Não, eles não chegaram aos mesmos ouvidos… Quando vieram, tradicionalmente em um caminho inverso, chegaram a outros ouvidos, já frios, já mortos, já destituídos do ouvir. Gritos amargos e ácidos que ninguém nunca pensou existir.

No último momento, antes do seu derradeiro suspiro, ela olhou nos olhos do horizonte, e este lhe sorriu. Ainda não era hora, ela sabia. Talvez na próxima.

Ela não chegou a ver a revolução. Mas ela sabia!

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