Meio velho (a), meio sujo (a), meio esfarrapado (a)…

Alguma vez você já se viu obrigado a pegar um ônibus que demora vidas para chegar ao ponto? Pois é, eu já. Num dia atrasado, pois já tinha começado do avesso, eu me vi parada no ponto, pensando de mau humor que aquele trambolho rolante demoraria 40 minutos para chegar até ali.

Enfim, no auge da reclamação mental, um homem de muletas – meio velho, meio sujo, meio esfarrapado – se aproximou bamboleante. Eu continuava a matutar meu azar, que me deixaria atrasada para pegar o segundo trampo do dia, em uma terça-feira maltrapilha e (já) consumida pela azia. Ao ver meu novo companheiro, não foquei demais. Afinal, era só um homem meio moço, meio velho, que aguardava um ônibus que, se ele tivesse sorte, chegaria em 5 minutos.

Tentando afastar a raiva do pessimismo, soltei um “Ônibus é só demora, né?!”. Um sorriso torto, dois passos arrastados na muleta e a resposta que recebi foi “Você tem passagem?”.

O TDAH rodopiou e foi bater em passagem pela polícia, passagem secreta, passagem de livro, passagem dessa pra uma melhor… respondi “Só no bilhete”. Outro sorriso, mais um arrastar de passos e muletas, uma mão no bolso. Pensei: “Ele vai me pedir dinheiro pra passagem”. Já contei, mecanicamente, as moedas no fundo da bolsa. “Dá!”.

Ao contrário. “Ah, porque se você não tivesse, eu passava pra você”. Oi? Foquei os olhos meio amalucados, a barba por fazer, a roupa meio suja, meio velha. Como? “É que eu me acidentei honrando o ofício (lindo!). Eu era lixeiro, e agora eu sou aposentado por invalidez. Eu tenho direito ao transporte gratuito com um acompanhante, mas, como venho sozinho, sempre sobra. Se você não tivesse, eu passava pra você. Que fique para outro que precise mais, né?!”. E sorriu torto.

A conversa levou à situação do governo, do país, ao jornal… e à fome. “Eu tenho aposentadoria, mas meu dinheiro tem data. Por que vou atrapalhar o almoço dos outros? Eu peço para falar com o gerente e digo que tenho fome. Se ele puder me dar, ele dá. Se não, que fique para outro que precise mais, né?!”.

Desta vez, o sorriso torto foi o meu. A vergonha da lamentação pela demora de um ônibus, o cansaço dos dois empregos e mais milhões de outras tarefas, a reclamação maquinal do almoço por fazer… tudo impresso naquele meu sorriso torto, apoiado nas minhas muletas de lamento automático.

Ele já não tinha fome e eu não tinha função ali. Me despedi, pois meu ônibus chegou mais cedo. Agradeci por me oferecer o transporte, sorri minhas muletas mais sinceras e subi no trambolho rolante que me arrastaria para casa, para o segundo turno de trabalho, para os meus cães, para a minha vida que não era, nem de longe, digna de tanto lamento.

Abençoei mentalmente a situação. Por eu não precisar da sua ajuda e nem ele da minha. Que ambas ficassem para quem precisasse mais, né?!

Entrei no ônibus meio velha, meio suja e meio esfarrapada. E agradeci por isso.

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