não faz tanto tempo assim

Quando eu era criança, dava muita importância para a sexta-feira, que era dia de levar brinquedo para a escola. Elogiava os cabelos dos colegas, ou dizia gentilezas a pessoas idosas que me diziam um “Olá” na rua – além de declamar meu nome completo, endereço E telefone. Era orientada por meus pais – e principalmente por minha mãe – a agradecer os elogios, a sorrir e a não me meter em conversas de adultos.

Em grupo, jogávamos bola, empinávamos pipa, descíamos ladeiras sentados em pedaços de papelão…

Quando eu era criança, coisa que nem faz tanto tempo assim, nós queríamos muito ser adultos logo. Achávamos o máximo ter um emprego, dirigir, fazer compras no supermercado. Achávamos o fim não poder assistir à novela das 9h (que nunca passou as 9h) e precisávamos de apenas R$ 1,00 para fazer uma tarde mais feliz na doceria do seu Zé.

Quando eu era criança ninguém estava preocupado com o fato de ser gordo ou magro, de ter cabelo curto ou liso ou de ter menos roupas que o colega. Todos usávamos bermuda, camiseta e chinelo (ou tênis) e eramos felizes sujos de lama.

Quando eu era criança não era comum ter jogos de computador. Menos ainda jogos ofensivos, desmoralizantes, agressores e tenebrosos como os que vemos hoje em dia. Quando eu era criança, nunca, jamais, pensaríamos em fazer uma lipoaspiração na Barbie, ou em arrumar seu nariz, ou em levá-la a um especialista para reduzir seu peso.

Nesta semana, um aplicativo infantil sobre cirurgia plástica foi retirado do ar nas lojas da Google e da Apple. Na prática, as crianças podiam fazer procedimentos cirúrgicos na “boneca gorda e feia”, realizar lipoaspiração e incisões no rosto e corpo da modelo de mentirinha.

Mesmo após a proibição, um outro jogo semelhante permite que crianças de 9 anos brinquem de “consertar” bonecas, melhorá-las, deixá-las “perfeitas e normais”.

Pensar que milhares de crianças tem acesso a aplicativos que, como este, demonstram a superficialidade da sociedade em que vivemos é tenebroso. Pensar que mães e pais nunca denunciaram um jogo visivelmente sexista e moralmente empobrecedor é ainda mais aterrador.

Vemos hoje crianças fazendo dietas desnecessárias, comprando roupas caras, exigindo joias e sapatos de marcas e preços abusivos. Vemos pais inertes e acomodados, confortáveis em agradar.

No meu tempo, tenho certeza, seria considerado bizarro cortar o corpo e tirar pedaços de si mesmo para parecer melhor. Isso graças à interferência quase beática da minha mãe que, com sua inteligência e diplomacia, teria considerado esse jogo uma perfeita idiotice.

Não entendo a cabeça de quem cria esses jogos. Menos ainda daqueles que os aprovam e vendem. E ainda menos daqueles que permitem que seus filhos os joguem.

Infelizmente, também não entendo a cabeça dessas crianças, pois, quando eu era criança, estávamos todos preocupados em ser… crianças.

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