Infância

Um dia desses eu perguntei para uma criança, na casa de uma amiga, se ali havia um dicionário que eu pudesse consultar. Estava com uma dúvida terrível, que me corroía a alma, sobre o significado literal de uma palavra que agora eu esqueci.

Na verdade, eu esqueci a palavra exatamente dois segundos depois de pedir o dicionário, pois o garotinho me disse que ali não havia um. Em seguida, me ofereceu o celular dele (melhor que o meu, inclusive) já no aplicativo do Aurélio para Android. Acho que nunca na vida fiquei tão chocada.

Não fiquei chocada somente por que um garotinho de 6 anos tem um celular melhor que o meu e que já tem até aplicativo de dicionário instalado nele, não. Fiquei chocada por que não havia um mísero dicionário naquela casa. Um apartamento de 6 cômodos, bem mobiliado, em um bairro muito bom, mas sem um dicionário? Quê?

Nenhum, nem ao menos um dicionário escolar. Nada. Como alguém pode educar uma criança sem um dicionário físico em casa? Como? COMO?

Como ser irresponsável o suficiente para criar um ser humano sem ter um dicionário na estante. Aliás, como não ter uma estante cheia de dicionários? Céus!

Pensei que aquele garotinho nunca teria o prazer de se sentar no chão, em uma noite sem luz, e brincar de inventar significados diferentes para uma palavra achada ao acaso em uma página velha e fedendo a pó de dicionário. Pensei que ele nunca espirraria com todo aquele pó e cheiro de velho. Que ele nunca se esticaria, na ponta dos pés, para alcançá-lo na extremidade distante da estante da sala e levaria uma boa enxurrada de livros na cabeça.

Tive pena.

Como alguém pode criar uma criança sem o desespero de chegar em casa para pegar o dicionário e saber o que significa aquela palavra que eu esqueci? Como não tomar antialérgico pra amenizar a agonia de se procurar uma palavra que encontrou enquanto lia no sofá? E como, por todos os deuses, negar a esse garotinho o sono sagrado dos antialérgicos com o livro na cara depois?

Fiquei chocada. Estarrecida.

Me despedi, acariciei aqueles cabelinhos castanhos, peguei a bolsa e fui pra casa, pegar o minha belíssima edição capa dura do Aurélio, de 1978, e que está na família desde então, apenas para procurar o significado daquela palavra. Aliás, daquela e de mais uma: infância. A minha, para ser mais exata.

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