Meus óculos

Eu cai e, no chão sujo da sala de estar de alguém, me perguntei o que, afinal, eu fazia ali. Procurei meus óculos.

Procurei no fundo da bolsa, nos bolsos, nas gavetas, por entre as garrafas de tequila. No fundo de uma caixa, no balcão, na minha cabeça e na ponta leste da minha alma, mas não achei.

Nem o óculos, nem o chão, nem o corpo que abandonei quando entrei nesse apartamento. Nem meu cigarro, nem eu, nem você, nem o gato que encontrei.

Abri os olhos, estatelada no chão daquela sala e fitei o reboco manchado do teto de alguém. Quem?

Me sentei afastando as garrafas e peças de roupas, as bitucas e os meus desejos que se espalharam pelo chão quando eu cai. Esfreguei os olhos e senti falta dos meus óculos novamente. Perdidos para sempre, assim como a minha mania de achar que encontraria tudo, incluindo a vontade de viver, meus objetivos e meus óculos.

Na cegueira momentânea do amanhecer e na penumbra permanente dos meus 6 graus de miopia, esbarrei no corpo que deixei na calçada. Ele me deu bom dia, me sorriu e estendeu a garrafa de cerveja pela metade.

Não dei bom dia, só perguntei onde estávamos e por quê. Nem ele soube responder. Só então perguntei dos meus óculos…

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