Uma pessoa pequena

Algo queima dentro de mim. Acordei com essa sensação.

De repente, o mundo parecia menor. Ou parecia menos. Na verdade, sou uma pessoa pequena.

Levantei da cama e dei uma topada, com o dedo mindinho do pé, na minha cama de farpas. Gritei os palavrões presos na minha alma e segui para a cozinha das minhas decepções.

A casa pegava fogo. Ela toda. Eu inteira, de dentro pra fora, do meio para as beiradas.

Na geladeira, abri a garrafa de água e dei um trago nas minhas incertezas, já velhas. Enquanto meu cérebro congelava, podia ouvir as batidas desrritimadas do meu coração. Eu fui uma pessoa morta.

Caminhei de volta pelo corredor das malditas lamúrias e dei de cara com um eu mais novo, menos gasto, também em chamas.

“O que te fez tão covarde?” – me perguntou. Não respondi.

Entrei no banheiro. Não me olhei no espelho. Não havia o que ver. Tomei uma última ducha abraçada nas minhas agonias e, quando sai, reencontrei uma velha amiga chamada saudade.

“O mundo te espera” – ela disse. Desta vez respondi. “Ele que vá pro inferno!”.

Voltei pelo corredor, reencontrei aquele meu eu mais jovem e o soquei, deslocando maxilar, quebrando o nariz, lacerando a carne, arrancando sangue.

Voltei, deitei na cama, em meio às chamas, e voltei a dormir.

Era um incêndio criminoso, mas, as vezes é preciso queimar, de dentro pra fora, para ver o que mais te odeia morrer.

Na verdade, eu sou só uma pessoa pequena.

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